segunda-feira, 13 de agosto de 2012

7 O MAGISTÉRIO DA IGREJA E A INCULTURAÇÃO DA LINGUAGEM LITÚRGICA


A constituição conciliar Sacrossanctum Concilium, quando utilizou a palavra “adaptação”, referindo-se à Liturgia, quis desencadear uma sensível abertura do processo celebrativo à mentalidade das diversas culturas nas quais a Igreja vai se inserindo (cf. SC 38). A expressão “adaptação” implica em renovação pedagógica e pastoral das celebrações litúrgicas, conforme os tempos e situações culturais dos povos[1]. Para isso, o Concílio confiou à competência e ao zelo das Conferências Episcopais a incumbência de estudar com os seus peritos os possíveis elementos a serem oportunamente incorporados na liturgia, atendendo ao que era já anseio de integrar nas diversas celebrações expressões da religiosidade popular[2]. Então, os bispos latino-americanos julgaram ser necessário, não somente adaptar-se à realidade das diversas culturas, mas encarnar-se nela (cf. Med. 9.7), ou seja, possibilitar o uso da “criatividade” na liturgia, indo além da adaptação, que apenas transplanta ou enxerta elementos culturais na liturgia[3].
“A meta da ‘criatividade’ é a introdução de novos símbolos, mais compreensíveis do povo de hoje, porque criados pela piedade popular ou experimentados nas CEBs e outros grupos de oração”[4]. Mas a “criatividade” deve alcançar um nível mais profundo, que é o da “aculturação”. De um modo geral, “a aculturação” é definida como o domínio de uma cultura sobre outra, mas, quando aplicada à liturgia, torna-se “um processo dinâmico que se desencadeia quando a fé se instala nas bases de uma cultura”[5]. No que concerne à inculturação, o processo é ainda mais profundo, pois “(...) incorpora ritos sociais ou religiosos, dando-lhes sentido cristão, sem desfigurar sua natureza. A própria liturgia romana assim se formou, incorporando, por exemplo, a festa pagã do Sol invicto na celebração do Natal. Por esta inculturação a liturgia se propõe continuar na História o milagre de Pentecostes quando, sob o impulso do Espírito, multidões entendiam a linguagem única do amor e proclamavam as maravilhas de Deus, expressando-se cada um em sua língua”[6]
Com a linguagem criativa dos gestos, da alegria, da dança, da acolhida, dos símbolos, vai-se contribuindo para aprofundar a mensagem do evangelho de Cristo, atualizando o seu mistério. É neste espírito que reflete o documento de Aparecida, segundo o qual “a inculturação é vista como uma riqueza, pela presença de novas expressões e valores, manifestando e celebrando cada vez melhor o mistério de Cristo, conseguindo unir fé e vida e assim contribuindo para uma catolicidade mais plena” (DAp. 479).
Quanto mais inculturadas forem nossas liturgias, mais plena será a participação das pessoas no mistério celebrado. Que sentido tem uma liturgia totalmente dissociada da realidade das pessoas e indiferente à sua linguagem e símbolos? Portanto, urge um esforço sempre maior para fazer com que a celebração litúrgica esteja em sintonia com a identidade e as formas de comunicação próprias de nossa gente, ou seja, possibilitar que a liturgia se expresse em símbolos e linguagem própria das nossas culturas[7]. Tudo isso se justifica porque a Igreja não deseja impor uma forma rígida e única na liturgia (cf. SC 37) e por isso, em seu cuidado pastoral, tem orientado para uma maior sensibilidade junto às diversas culturas, que acolhem e celebram o mistério de Jesus Cristo. Ela chama a atenção para “a importância de deixar o povo se exprimir com gestos, símbolos, dramatizações, numa celebração litúrgica adequada ao seu universo mental. Pois, o gesto corporal ‘exprime e estimula os pensamentos e sentimentos dos participantes”[8].
Percebemos, então, que a inculturação litúrgica é útil e necessária, mas existem algumas exigências que devem ser levadas em conta, se quisermos que a mesma aconteça de forma eficaz. Para isso, é preciso: a) conhecimento profundo da mensagem cristã e da sua liturgia; b) conhecer profundamente a cultura, sobretudo as cerimônias tradicionais e, com discernimento, ver o que é compatível com a proposta celebrativa, evitando o sincretismo e a dupla pertença; c) coragem e confiança na ação do Espírito que guia, ilumina e nos lança na aventura de descobrir novas maneiras de rezar; d) lembrar de que a inculturação é uma questão de fidelidade a Cristo e ao Espírito que enviam as pessoas de um lugar para outro[9].
Tais passos são, ao mesmo tempo, desafios a serem enfrentados e assumidos, corajosa e profeticamente, na fidelidade à missão que o próprio Jesus Cristo confiou aos que o seguem. Trata-se de uma “fidelidade criativa” que salvaguarda o conteúdo inalterável da fé cristã, revestindo-o dos símbolos próprios que tem em conta os diversos meios culturais, sociais e até mesmo os raciais (cf. EN 65). Os bispos reconhecem que “entre nós os vários grupos étnicos, como os índios, os negros, os orientais, apresentam muitos desses elementos, que já merecem ser inculturados em nossas celebrações, sobretudo nos sacramentos”[10]. É atendendo a esta solicitação que iremos retomar nossa reflexão sobre a inculturação da liturgia no meio específico das culturas afro-brasileiras, em seu jeito criativo e dinâmico de celebrar. Até o próximo artigo!

Axé!

Pe. Degaaxé





[1] Cf. CNBB. Animação da vida litúrgica no brasil. doc. 43, n. 166.
[2] Cf. Ibid., n. 182.
[3] Ibid., n. 174.
[4] Ibid.,  n. 174.
[5] Ibid. n. 177.
[6] Ibid., n. 179s.
[7] CNBB. Diretório para missas com grupos populares. doc. 11. n. 1.6. Podemos verificar ainda, ao número 1.2.3 do mesmo documento o seguinte: “Uma liturgia com o povo simples será tanto mais conforme ao seu gosto e capacidade e tanto mais proveitosa, quanto mais se encarnar em sua experiência vivencial” (Ibid., n. 2.3.1).
[8] CONGREGAÇAO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS. Instrução Geral do Missal Romano, n. 20.
[9] Cf. LANGA, Adriano. A oração cristã e as exigências da inculturação, p. 91.
[10] CNBB. Animação da vida litúrgica no brasil, n. 183.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

6 EVANGELIZAÇAO: A ENCARNAÇÃO COMO FONTE E A INCULTURAÇÃO COMO EXIGÊNCIA

A evangelização tem um caráter universal, porque é universal a salvação que Jesus Cristo propõe, fazendo acontecer o seu reino no contexto das diversas culturas, conforme bem expressa o papa Paulo VI na Evangelii Nuntiandi: “O reino que o Evangelho anuncia é vivido por pessoas profundamente ligadas a uma determinada cultura, e a edificação do reino não pode deixar de servir-se de elementos da civilização e das culturas humanas” (EN 20). Em outras palavras, para evangelizar, é necessário aproximar-se das culturas e dialogar com elas, reconhecendo nelas a ação do reino de Deus ou o reino de Deus em ação. “A ação de Deus, através do seu Espírito, dá-se permanentemente no interior de todas as culturas. Na plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho Jesus Cristo, que assumiu as condições sociais e culturais dos povos” (SD 243). Esta realidade aponta para outro importante tema desta pesquisa: a inculturação.
Quando falamos em inculturação, não se trata de uma ação opcional ou secundária, mas de um aspecto realmente fundamental na evangelização. Basta relacionarmos com o processo da Encarnação do Filho de Deus[1], para entendermos a sua importância. Sobre isso, o autor moçambicano A. Langa, afirma que a inculturação é o outro nome da encarnação de Jesus Cristo, em cada cultura existente ou que virá[2]. Mencionando algumas tribos africanas, o mesmo autor reforça a compreensão: “Se ontem Jesus falou e rezou em hebreu e em aramaico, Ele quer hoje falar e rezar em xangana, em nyanja, sena”[3], guarani, yorubá, etc. A encarnação de Jesus se deu de modo universal e permanente, contemplando todos os povos e culturas. Através da inculturação, esta encarnação de fato se torna mais sentida nas mais desconhecidas realidades. O documento da Conferência de Santo Domingo também faz referência a esta analogia: “A analogia entre a encarnação e a presença cristã no contexto sócio-cultural e histórico dos povos suscita para nós o problema teológico da inculturação. Esta inculturação é um processo que vai do Evangelho ao coração de cada povo e comunidade com a mediação da linguagem e dos símbolos compreensíveis e apropriados segundo o juízo da Igreja” (SD 243).
A CNBB define a inculturação como o “processo de inserção do Evangelho no quotidiano de um povo, de tal forma que ele possa expressar sua experiência de fé em sua própria cultura”[4]. Neste processo, o Evangelho se encarna em uma determinada cultura a fim de que a mesma possa expressar sua fé através da linguagem e símbolos que lhe são próprios. Quando se alcança este nível de maturidade no processo, temos o nascimento de uma nova criação. A inculturação pode ser definida ainda como “uma íntima transformação dos valores culturais autênticos, graças à sua integração no cristianismo e ao enraizamento do cristianismo nas diversas culturas humanas”[5]. Tanto uma como outra afirmação destaca o resultado de um misterioso intercâmbio de valores, que implica em enriquecimento para a cultura e enriquecimento para a Igreja. Trata-se de um inserir-se para integrar. Este dúplice movimento é fundamental, no que concerne a uma evangelização autêntica. Em outras palavras, “com a inculturação, a Igreja encarna o Evangelho nas diversas culturas e, ao mesmo tempo, introduz os povos com as suas culturas na própria comunidade’” (RM 52)[6].
Axé!
Pe. Degaaxé

[1] “Inculturação é o processo que põe frente-a-frente o Evangelho e uma dada cultura, para que o mesmo Evangelho se incarne, à maneira de Jesus Cristo que se fez homem”. (LANGA, A. Op. cit., p. 79). Sobre isso temos ainda uma contribuição do Bem-aventurado João Paulo II: “Este dúplice movimento, em ato na inculturação, exprime, portanto, um dos componentes do mistério da Encarnação” (João Paulo II. Exortação Apostólica Catechesi Tradendae. n. 53, 16 de out. de 1979. Apud CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO. A liturgia romana e a enculturação,  p. 8).

[2] Cf. LANGA, Adriano. Op. cit., p. 85. 
[3] Ibid., p. 85. 
[4] CNBB. Diretrizes gerais da ação evangelizadora da igreja no brasil 1999-2002. doc. 61, n. 88. 
[5] CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO. A liturgia romana e a inculturação, p. 7.
[6] Esta realidade foi explicitada no Concílio, no documento sobre a Sagrada Liturgia e retomado com vigor nas Diretrizes Gerais da Evangelização da Igreja no Brasil, doc. 61, 1999-2002, nº 263, p. 158. Também queremos ressaltar que outro documento da CNBB sobre Pastoral afro, princípios de orientação, na página 52, também trabalha muito bem este assunto.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

5 SOMOS TRANSFORMADOS (AS) NAQUELE QUE CELEBRAMOS


           Segundo a liturgista I. Buyst: “A liturgia leva a uma aprendizagem na medida em que as pessoas participam da própria ação litúrgica, ativa e consciente, exterior e interiormente, de forma plena e frutuosa; na medida em que entram de cheio na proposta ritual”[1]. É fundamental que a celebração litúrgica aconteça na sua integralidade, acolhida em sua proposta ritual, que tem como finalidade transformar as pessoas segundo o mistério que se celebra. Na liturgia tudo é simbólico, enquanto congrega, dá sentido e faz experimentar uma realidade que não se esgota no real, naquilo que se vê e se pode tocar.
           A assembleia, reunida para celebrar o mistério pascal de Cristo, torna-se ‘sacramento’ de Sua presença, escutando a Palavra de Deus e dirigindo  a Ele suas preces para que venha o seu reino anunciado nas leituras. Ao redor da mesa do Senhor, ela traz o pão e o vinho, que simbolizam a vida dos seus membros e do mundo inteiro – com suas alegrias e esperanças, tristezas e angústias, acertos e desacertos, avanços e retrocessos – entregando nas mãos do Pai, juntamente com a vida de Jesus Cristo, durante a oração eucarística. Ao proclamar a bênção da mesa, que é a oração eucarística, a assembleia diz: por Cristo, com Cristo e em Cristo, oferecendo ao Pai, com os sinais do pão e do vinho, o ‘sacrifício de louvor’, dando graças pela salvação que ele realizou na morte-ressurreição do Senhor, mas também invocando o Espírito Santo para que o mistério da páscoa de Jesus se realize hoje entre todos e todas na celebração, prolongando-se no cotidiano de suas vidas. Ao partilhar o pão e o vinho, em seguida, sente-se associada ao mistério pascal de Cristo, deixando-se transformar por ele, assumindo um caminho de seguimento de Jesus, rumo à plena comunhão com o Pai. Os participantes devem voltar às atividades do cotidiano como testemunhas do Ressuscitado e profetas do reino de Deus[2] para promover a vida e a dignidade das pessoas, lutando contra as estruturas injustas como fez o próprio Jesus, na doação de sua vida, para que todos e todas tenham vida e vida plena.
A linguagem simbólica litúrgica é, portanto, um convite a um envolvimento pleno com a proposta salvífica de Cristo, que nos faz passar continuamente da escravidão para a liberdade, do luto para a alegria, da servidão para a plena cidadania. Sendo assim, “somos transformados naquilo que celebramos”, acolhendo a realidade do mistério pascal como “páscoa de Cristo na páscoa da gente, páscoa da gente na páscoa de Cristo”[3]. Todas as celebrações da Igreja fazem referência a este mistério. A nossa participação, longe de ser uma experiência puramente intimista, nos faz sentir a alegria de viver intensamente a dimensão comunitária. Mesmo que sejamos de diferentes lugares e culturas, formamos um só corpo em Cristo[4] e, com ele, chamados a “viver a missão de transformar este mundo e abri-lo ao Reino de Deus”[5].
Axé!
Pe. Degaaxé

[1] BUYST, Ione. O segredo dos ritos, p. 159; cf. Também, da mesma autora: Liturgia de coração, p. 122-136.
[2] Cf. BUYST, Ione; FRANCISCO, Manoel João. Op. cit., p. 34. na mesma página , a autora reflete o sentido integral da celebração eucarística, utilizando o relato dos discípulos de Emaús: “Também no relato do encontro do Ressuscitado com os discípulos de Emaús (cf. Lc 24, 13-35) reconhecemos essa mesma estrutura dinâmica. O Ressuscitado vem ao encontro dos seus, caminhando com eles; a partir dos relatos feitos pelos discípulos, anuncia-lhes o sentido de sua morte-ressurreição; em seguida, celebra com eles a fração do pão; cheios de ardor, os discípulos voltam a Jerusalém para anunciar o acontecido”.
[3] CNBB Animação da vida litúrgica no Brasil. doc. 43, n. 300.
[4] “(...) O sujeito último é Cristo, que fez da Igreja o seu corpo sacerdotal, unidade na diversidade, diferente nos ministérios e diferente nos níveis de maturidade eclesial de fé, nas expressões e sensibilidade, como também eram muito diferentes as pessoas que se exprimiam ao redor de Jesus” (frase de D. Armando Bucciol, durante o Simpósio de Teologia, Porto Alegre, 16 de junho de 2012)
[5] SOUZA, Marcelo de Barros. Celebrar o Deus da vida: tradição litúrgica e inculturação, p. 20.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

4 RAÍZES DA LINGUAGEM SIMBÓLICA DA LITURGIA CRISTÃ

          Quando falamos de liturgia, nos referimos a ação culminante da Igreja, assim como base e fonte de onde ela extrai toda a sua vitalidade (cf. SC 10). É o centro da vida da Igreja e a ‘alma’ da sua missão evangelizadora. Quando se celebra a sagrada liturgia, celebra-se a novidade pascal introduzida por Cristo, através da doação de sua vida pela salvação da humanidade.  Conforme a Sacrossanctum Concilium, “a liturgia é tida como o exercício do múnus sacerdotal de Jesus Cristo, no qual, mediante sinais sensíveis, é significada e, de modo peculiar a cada sinal, realizada a santificação do ser humano; e é exercido o culto público integral pelo Corpo Místico de Cristo, Cabeça e membros” (SC 7). A ação simbólica que se desenvolve a cada liturgia é o próprio Cristo que, em sua misericórdia, nos faz participar do seu Mistério. Experimentamos a salvação e contribuímos para a salvação dos demais irmãos e irmãs. Trata-se de uma ação sagrada por excelência, inigualável a qualquer outra atividade na Igreja, através da qual prolongamos, no mundo, a Obra de Cristo (cf. SC 7)[1].
          A liturgia cristã se enraíza no culto judaico, que tem no seu centro Iahweh, Deus único e pessoal, cuja presença ativa na história busca libertar o seu povo e estabelecer com ele uma aliança de amor[2]. A celebração da páscoa é central na vida deste povo e seu sentido “foi amadurecendo ao longo dos séculos. De uma festa primaveril e pastoril, recebeu um novo sentido com a libertação do Egito. Tudo isso preparava o povo para receber seu pleno sentido em Jesus Cristo, que se deixou imolar pela libertação da humanidade inteira”[3].
         Jesus de Nazaré nasce, vive e atua dentro do sistema de culto do seu povo. Ele é um assíduo freqüentador da sinagoga (cf. Lc 4,16; Mc 1,21-39; Mt 4,23), participa regularmente do culto do templo e das festas anuais de peregrinação (Lc 2,41-42; Jo 2,13). Assumindo a cultura do seu povo, com suas linguagens e símbolos, ajudou-o a olhar a realidade com uma visão diferente e a ter uma postura mais comprometida, em vista da transformação das estruturas injustas que impedem a vida digna para as pessoas. Por causa do seu engajamento profético, na fidelidade ao projeto de Deus, foi martirizado.  Ao passar pela morte e gloriosa ressurreição, conduziu as pessoas a uma intensa comunhão com Deus e entre si. Ele não institui uma nova páscoa, mas realiza, pela sua vida, morte e ressurreição, a plenitude da páscoa[4], dando um sentido novo, um novo significado a muitos ritos e festas litúrgicas.
          A linguagem simbólica da liturgia atual foi herdada da dinâmica da última ceia, em que Jesus - utilizando o ritual judaico - anuncia aos seus discípulos a libertação plena que estava por vir e que ele mesmo desejou ardentemente partilhar com os seus amigos. Nesta ceia, Jesus prevê algumas novidades, antecipando ritualmente o que ia se passar com ele na cruz. Num clima de muita expectativa e familiaridade, Jesus, por meio de gestos simbólicos, manifesta o sentido de sua entrega livre, característica que marcou toda a sua vida e que devia fazer parte também da vida dos seus seguidores[5]. Sendo assim, “Tomou o pão, deu graças, partiu e deu a seus discípulos (...) no fim da ceia tomou o cálice com vinho em suas mãos, deu graças e o deu a seus discípulos (...). As palavras que acompanham esses gestos simbólicos de Jesus é que traziam a novidade em relação à ceia judaica: Tomem e comam, isto é o meu corpo que será entregue por vocês (...). Tomem e bebam todos vocês, isto é o cálice do meu sangue, o sangue da nova e eterna aliança que será derramado por vocês (...). Façam isto para celebrar a minha memória.[6]
Celebrar a liturgia é, então, realizar o desejo de Jesus: fazer o que ele fez. Jesus envolve os discípulos no mistério de sua entrega e lhes dá a ordem de prolongarem no mundo os seus gestos para a salvação da humanidade. A sua ação salvífica se prolonga no mundo por meio da ação simbólica litúrgica. Através dela, fazemos memória do mistério da morte e ressurreição de Jesus, também chamado mistério pascal. A expressão hebraica zikkarôn e a grega anámnesis, traduzem uma realidade para além de uma simples recordação, uma simples lembrança. Trata-se de uma participação no fato lembrado, graças à participação no rito celebrado (Ex 13, 3-10)[7]. Neste sentido, a liturgia é festa da libertação, pois quem participa atenta e efetivamente dela está experimentando, no hoje da história, a libertação realizada pelo Senhor uma vez para sempre[8].

Axé!
Pe. Degaaxé


[1] “A liturgia é a vida da igreja e chamada a ser memorial do mistério pascal. A liturgia é a vida dos cristãos. Quando falamos liturgia, segundo a Sacrossanctum Concilium, existe um antes e um depois: o antes é o conhecimento da Palavra de Deus e o aprofundamento do que celebramos; o depois é a vida de caridade, o testemunho” (frase de D. Armando Bucciol, atual presidente da Comissão Episcopal para a Liturgia da CNBB, durante o Simpósio de Teologia, em Porto Alegre, dia 16 de junho de 2012).
[2] Cf. BUYST, Ione; FRANCISCO, Manoel João. O mistério celebrado, p. 33.
[3] ZILLES, Urbano. Significação dos símbolos cristãos., p. 23.
[4] Cf. SOUZA, Antônio Carlos de Oliveira. Tempos e festas da Liturgia. p. 78.
[5] Cf. BUYST, Ione; FRANCISCO, Manoel João. O mistério celebrado, p. 33.
[6] Ibid., p. 33.
[7] “Fazer memória vai para além do lembrar: Recordamos os feitos de Deus e pedimos que, na sua misericórdia, continue realizando maravilhas entre nós. A finalidade última da Eucaristia é tornar-nos um só corpo com Cristo. Fazer memória é participar do seu destino. Ao celebrar o mistério de Cristo a cada liturgia, vamos nos moldando ao mistério de Cristo para nos transformarmos nele, aderindo e assemelhando-nos a ele” (palavras do padre H. Farias, assessor de Liturgia da CNBB, durante conferência sobre Espiritualidade litúrgica, no VII Congresso de Entidades Negras Católica – CONENC, na cidade de Londrina, entre os dias 09 e 12 de fev. de 2012).
[8] “O mistério pascal de Cristo é celebrado, não é repetido. O que se repetem são as celebrações. Em cada uma delas sobrevém a efusão do Espírito Santo que atualiza o único Mistério” (palavras de D. Armando Bucciol, atual presidente da Comissão Episcopal para a Liturgia da CNBB, durante o Simpósio de Teologia, em Porto Alegre, dia 16 de jun. de 2012).

quarta-feira, 25 de julho de 2012

AGENTES DE PASTORAL NEGROS, “SEMENTE” DA PASTORAL AFRO.

Introdução    
             Este breve texto resgata um pouco da história dos APNs e a sua relação frutuosa com a Pastoral afro-brasileira. Embora que atualmente existem juntos e com caminhos diferentes, deve-se reconhecer que os APNs são “semente” plantada em terra boa, da qual saiu a Pastoral afro. Chamamos de Pastoral afro à articulação oficial da CNBB, surgida em 1996, enquanto que os APNs surgiram em 1983. Esses dados não querem desmerecer as iniciativas de resistência e promoção da comunidade negra desde que o primeiro negro ou negra pôs os pés nessas terras como escravo ou escrava. Esta reflexão nos permite encontrar respostas para os seguintes questionamentos: o negro deve deixar de ser negro para ser cristão? Pode um negro ser um cristão autêntico se nega a sua negritude? Como as práticas dos (as) agentes da pastoral afro podem contribuir para a construção de outra sociedade possível? Estas questões trazem uma inquietação muito grande não somente para os agentes de pastoral, mas para toda a Igreja.
O nascimento dos APNs coincide com a descoberta da negritude na Igreja
            Não há dúvida que, com o término do Concílio Vaticano II, a Igreja Católica tornou-se um canal expressivo para as reivindicações dos movimentos sociais[1], em particular para o que vem do povo negro. Cresce nas lideranças a consciência da necessidade de se refletir sobre a realidade de conflito racial no Brasil. Este é também um período que gera a Teologia da Libertação[2] no intuito de contribuir com uma reflexão teológico-prático-pastoral no interior da pastoral social das Igrejas, na aproximação das realidades do povo negro, periferia, favelas e organização de movimentos sociais e populares[3]. Estes, aos poucos vão descobrindo as causas sociais da situação de miséria e exclusão, às quais foram submetidos e passam a exercitar a solidariedade como alternativa para superar tal situação[4]. A presença do negro e da negra vivendo sua fé sempre marcou a história da Igreja. Em meio a colonização, escravidão e tanto sofrimento, não faltou o resgate das confrarias e irmandades, já cultivadas na África, e que aqui, em contato com as que vieram da Europa, foram responsáveis por salvaguardar a fé e valores do povo negro[5]. Os elementos fundamentais da fé cristã, juntamente com sua cosmovisão e práxis solidária, trouxeram para a comunidade negra uma rica reflexão e práxis. É na participação junto às Comunidades Eclesiais de Base – CEBs - que os afrodescendentes podem manifestar sua fé de forma concreta e comprometida[6]. “Na identificação dos problemas que afligem a vida dos empobrecidos, desponta a questão do racismo e da discriminação. A percepção de que a discriminação e o racismo agravavam ainda mais a situação no mundo dos pobres e marginalizados, colocava um desafio a mais para os negros na Igreja”[7].
            Foi também de fundamental importância, a realização da Terceira Conferência Geral dos Bispos latino-americanos e Caribenhos em Puebla, em 1979. Uma das grandes contribuições que o documento final trouxe foi a relação das feições sofredoras dos indígenas e afrodescendentes com as feições sofredoras de Cristo (Puebla, n. 34). No ano seguinte, o Conselho Episcopal Latino-americano - CELAM - realizou um "encontro na Colômbia, retomando a questão, propondo pontos concretos com relação à Comunidade Negra, reassumindo o compromisso de, como Igreja, dar uma maior abertura às iniciativas afro, o que suscitou, a partir de 1980, o surgimento dos Encontros de Pastoral Afro-Americana - EPA. Por ocasião do segundo EPA, em Esmeralda, no Equador, nasce no Brasil, os Agentes de Pastoral Negros - APNs. Porém, o seu surgimento está muito mais ligado ao Grupo de União e Consciência Negra – GRUCON, do qual participavam também não-cristãos. Surgiu um conflito interno quando houve a proposta da criação de uma pastoral do negro ou pastoral afro, ligada à Linha 2 da CNBB. Deste conflito, o grupo se dividiu, permanecendo como GRUCON somente a parte que quis continuar independente da Igreja. A outra, passou a usar, pela primeira vez, a terminologia Agentes de Pastoral Negros que, mesmo nascendo como uma pastoral do negro na Igreja, rompe os limites eclesiais, em sua práxis, sendo também um movimento negro, marcando sua ação e militância pela questão da fé[8]. Hoje, os APNs realizam uma caminhada independente, pois não se consideram mais “da Igreja”. A partir daí inúmeros outros grupos foram surgindo, acompanhados e articulados pelo Secretariado Nacional da Pastoral Afro, ligado a CNBB.
Ser agente da pastoral afro é ter engajamento profético nas diversas lutas da comunidade negra
            O contexto em que se dá a criação da Pastoral afro está marcado pelas “muitas iniciativas no trabalho com as comunidades negras, pela necessidade de ter uma coordenação que articulasse os vários serviços, funcionasse como ponto de referência e contribuísse para que os trabalhos efetivamente acontecessem. A Pastoral afro-brasileira tem acompanhado e participado da organização dos serviços que dizem respeito à comunidade negra. Assume como objetivos: a) animar os grupos negros católicos existentes; b) incentivar o surgimento de novos grupos que buscam sua identidade numa sociedade e Igreja plurais; c) promover a integração, e articulação dos grupos e das iniciativas, respeitando as suas particularidades; d) colaborar na construção de uma sociedade justa e solidária, como exercício da cidadania a serviço da vida e da esperança, e testemunhar a fé em profunda comunhão eclesial”[9]
Diferentemente de outros agentes de pastoral, os agentes da pastoral afro, segundo o Pe. Toninho, cultivam três posturas: a) tomada de consciência quanto a discriminação na sociedade; b) levar o debate sobre a questão do racismo para dentro das Igrejas, despertando-as para a tomada de consciência sobre o racismo internalizado, inclusive em suas práticas e procedimentos; c) alicerçar a luta contra o racismo e a discriminação a partir da experiência fundante de fé de cada integrante[10]. Pela mística da negritude, resgatam os valores afro, mantendo atitudes de fé e luta, no exercício da solidariedade com os excluídos da sociedade. Assim, muitas lutas da negritude têm encontrado no projeto de atuação destes agentes uma atenção toda especial. São elas: a luta pelos direitos étnicos e humanos; a luta pela igualdade de oportunidade; a luta contra toda forma de racismo; a luta pela valorização da cultura negra; a luta ao lado dos quilombolas pela terra, fonte vital e herança ancestral; a luta pelo direito à vida; a luta por um processo educacional, comprometido com a sua realidade; a luta por melhores salários; a luta por uma teologia enegrecida; a luta contra a pena de morte; a luta contra o extermínio de crianças; a luta contra os cinturões de pobreza que a cada dia aumentam mais; a luta pela cidadania; a luta da mulher, que é também a luta da mulher negra, pelo resgate de sua subjetividade e dignidade. E tantas outras lutas[11].

Conclusão
             Os elementos da negritude, uma vez reconstruídos e resgatados enegrecem a Igreja, pois oferecem aos negros e negras um jeito próprio de ser e contribuem para que a evangelização seja sempre mais dinâmica. O próprio documento de Aparecida reconheceu que os afrodescendentes se caracterizam “pela expressividade corporal, enraizamento familiar e sentido de Deus” (DAp 56). Assim, buscam oferecer o melhor de si para que a prática pastoral seja includente e comprometida. Muitos desses negros e negras vêm de práticas solidárias em favor das comunidades mais pobres e questionam a muitos que, dentro da Igreja, não contribuem para que ela seja de fato profética. A nossa missão eclesial traz como característica um discipulado reparador, promovendo a vida e dignidade dos afrodescendentes, denunciando as injustiças, discriminação e políticas de exclusão, às quais são submetidas comunidades negras.

Axé!



[1] "No período do Regime Militar no Brasil, poucas foram as instituições onde se tornou possível organizar as lutas de resistência e cidadania. Neste sentido, a Igreja, por ser uma instituição menos visada pelo sistema repressor, acabou se constituindo num espaço privilegiado para o fortalecimento dos movimentos sociais (...) Alguns autores, como Viola e Scott chegaram a afirmar que mesmo nos períodos mais repressivos, as CEBs foram virtualmente as únicas organizações populares no Brasil"( ROCHA, J. G., Op. cit., p. 68). Cf. também KÄRNER, H. Movimentos sociais: Revolução no Cotidiano. In WARREN, I. S.; KRISCHKE, P. J. (Org.) Uma Revolução no cotidiano? Os movimentos Sociais na América do Sul. Brasiliense, São Paulo, 1987, p. 25.
[2] Ibid., p. 68.
[3] Cf. SILVA, Marcos Rodrigues da.  Emergência da consciência de ser negro/negra na pastoral, p. 7.
[4] Cf. ROCHA, José Geraldo da. Teologia e negritude, p. 69.
[5] Cf. SILVA, Marcos Rodrigues da. Op. cit., p. 7.
[6] A partir destas comunidades, que funcionavam como verdadeiras escolas de formação para a cidadania, muitos grupos se organizaram visando a transformação da sociedade e buscando readquirir seus direitos" (Ibid, p. 68).
[7] Ibid., p. 69.
[8] Cf. ROCHA, José Geraldo da, Op. cit., p. 69.
[9] 15º Plano Bienal de Atividades do Secretariado Nacional, doc. Da CNBB,  p.63 apud VI CONENC- Texto Base. Refletindo o rosto negro da Igreja: de Medellin à Aparecida. Brasília, 2009, p. 40-41.
[10] Cf. SILVA, A. A. da. in Id. Ibid., p. 73; Cf.  também SILVA, A. A. in ATABAQUE-ASETT. Op. cit., p. 14.
[11] SILVA FILHO, S. T. da. Vida Religiosa e negritude. In . In Negros e Indígenas: Novos rostos da Vida Religiosa. Revista Convergência, Rio de Janeiro, 1995, CRB, n. 284, p. 373.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

A PROFECIA DE UM MUNDO MAIS HUMANO

        O tema central desta reflexão é a questão missionária como profecia de um mundo mais humano. Pela atividade nos fazemos próximos uns dos outros e vivemos uma vida com sentido. A missão dá sentido à vida e, como não se vive sem sentido, então não se vive sem missão. A missão é um caso de amor e quem ama é verdadeiramente missionário. A missão, para ser verdadeira, deve ser profética, ou seja, deve fazer a diferença. Isso fica bem evidente tanto com o profeta Amós quanto com os discípulos enviados por Jesus.
         Após a morte de Salomão o reino se divide em dois: Israel ao norte e Judá ao sul. O profeta Amós pertence ao reino do sul e é enviado por Deus para profetizar no norte. Amós é colono e cultiva um estilo de vida simples, de sorte a ter a missão profética, não por profissão, mas sim por vocação. O seu encontro com sacerdote Amasias não produz muito fruto, pois este pertencia à corte e dava respaldo ao sistema injusto do rei Jeroboão II. Este sacerdote sente-se incomodado com a presença do profeta Amós, o qual manifestava o desgosto do Senhor com tal situação. Amasias então expulsa o profeta, pois sua presença ameaçava a todo o sistema. Os profetas são mesmo assim: veem longe e se antecipa nas situações, provocando um repensar a vida, a conduta e as decisões. Os profetas são perseguidos porque não se contentam em ficar olhando as coisas acontecerem como meros expectadores, mas investem o melhor de si para que outra realidade possível possa acontecer.
         O profeta tem consciência de que sua vocação não é iniciativa própria, mas tem origem divina. Ele é consciente de sua realidade e da realidade do seu povo. Vive incomodando aqueles que mantêm estruturas injustas, explorando e oprimindo as pessoas. Ele vive uma vida com sentido, pois é constituído profeta para os outros. Não existe profeta para si mesmo. Como mensageiro da Palavra de Deus, o profeta não fala em nome próprio. Por isso suas palavras inquietam, provoca rupturas, levando à conversão e a decisão. A vida parece perder a sua dinamicidade, quando os profetas se calam.
         Jesus envia os discípulos com uma missão profética, pois deseja que a presença deles faça a diferença na vida de muitas pessoas, principalmente dos pobres, doentes e sofredores. Assim como foi a missão de Jesus, deve ser a dos seus discípulos, que, na verdade, apenas continuam a missão do mestre. Jesus podendo fazer tudo sozinho, não o faz; quis contar com colaboradores. Primeiro, os chama para estarem com eles e depois os envia em missão. O envio é feito dois a dois, pois o seu desejo é que a missão seja partilhada em comunidade, isto é, deve haver uma co-responsabilidade na missão. Um missionário não surge por conta própria, mas a partir de uma comunidade. Ele age em comunidade e caminha em sintonia com ela. Em comunidade pode se ajudar e se fortalecer. Os discípulos missionários de Jesus partem com a autoridade de Jesus sobre as forças do mal, que oprimem e paralisam as pessoas; aceitam a proposta de desprendimento com relação aos bens materiais e o despojamento de si. A sua única riqueza é a missão. Quando não forem escutados, não devem forçar ninguém a aceita-los; devem partir para outro lugar como mensageiros de paz.
         Os discípulos e discípulas atuais somos chamados a crescer na consciência de que não seguimos uma ideia ou uma doutrina, mas uma pessoa – Jesus Cristo - que exerceu um grande fascínio sobre nossas vidas. Alimentamos esta certeza, quando somos capazes de cultivar um encontro verdadeiro pessoal com ele. Esta experiência plena de sentido não pode ficar fechada em nós; deve ser comunicada e com muito entusiasmo para que mais pessoas se tornem discípulas, empenhando o melhor de suas vidas pela mesma causa pela qual Jesus deu sua vida. A missão evangelizadora é uma caminhada solidária com a realidade das pessoas. É profecia de um mundo onde os pobres, os doentes e sofredores são olhados com prioridade. Se em nossa missão não priorizarmos este tipo de pessoas, jamais corresponderemos à vontade daquele que nos chamou. Se não nos colocarmos ao lado dos que mais precisam, cultivando um estilo de vida simples junto a estes e agindo afetiva e efetivamente em suas vidas, a mensagem que levamos vai perdendo pouco a pouco a sua força profética.


Axé!

Pe. Degaaxé

segunda-feira, 9 de julho de 2012

3 A LINGUAGEM DOS SÍMBOLOS

        Os símbolos têm uma sintonia bastante aguçada com os temas anteriores, pois, sendo um fenômeno humano[1], fazem parte da riqueza do interior do ser humano, que é comunicada como expressão e produção cultural.  O símbolo não vale pelo que é em si, mas pelo que ele significa. Assim sendo, um abraço, um gesto, um movimento, ou uma ação traz um significado que os ultrapassa enquanto situações visíveis. Quando nos referimos aos símbolos religiosos, essa verdade parece ainda mais notável. Sobre isso, o autor U. Zilles, citando Paul Tillich, afirma que o sentido dos símbolos religiosos “consiste em ser a linguagem da religião, a única linguagem através da qual a religião se pode expressar de maneira imediata”[2]. Porém, os símbolos variam muito de uma cultura a outra. Símbolo que numa cultura é cheio de significado, para outra, não tem significado algum[3].
         Segundo o autor L. C. Susin, “os símbolos possuem uma nota comum, mas ganham direções polivalentes. Para saber a força do símbolo e a sua direção, é necessário saber que experiência se tem deste símbolo dentro da cultura em que está”[4]. Os símbolos, ao mesmo tempo em que expressam uma identidade, uma grande paixão, podem levar a sérios conflitos. É só tomarmos como exemplo a bandeira de certo povo; quando ela é queimada por outro, acirram-se os ânimos, por agredir o patriotismo, provocando violência. Uma imagem sacra, quando é ultrajada, chutada por alguém, agridem-se os sentimentos religiosos dos fiéis devotos.
        Para nos relacionarmos com Deus necessitamos de sinais e símbolos. Os símbolos nos permitem enxergar além e o oculto[5]. Por isso se diz que o símbolo tem algo de misterioso e encantador. Se tomarmos a Sagrada Escritura, vemos a criação como um símbolo todo particular da bondade, generosidade e grandeza do seu Criador. Já em Jesus, temos o símbolo por excelência, por nos revelar plenamente o Pai[6]. Tornando-se nosso referencial, vemos tudo a partir dele. É neste sentido que se compreende a existência e finalidade da Igreja, como bem expressa o autor Urbano Zilles: “O símbolo de Cristo prolonga-se, até certo ponto, através da Igreja, portadora de suas palavras e de seus sinais. A Igreja é um caminho para chegar a Cristo, o Filho de Deus. Ela expressa seu mistério através de uma linguagem simbólica, nas celebrações, por um conjunto de sinais. Toda a vida eclesial é simbólica. Os fiéis alimentam a sua fé e se unem a Cristo através de símbolos”[7].  
        A Igreja não existe para ela mesma. É aí, portanto que reside o seu mistério, pois, como continuadora da obra de Cristo, é enviada a todos os povos e culturas, como símbolo de Cristo e tem a finalidade de prolongar e atualizar sua obra, principalmente, de forma teológico-simbólica, isto é, atualiza a salvação de Cristo através da liturgia. Esta riqueza, que é a liturgia cristã, tornou-se acessível graças ao testemunho de tantas pessoas que, como Cristo, fizeram de suas vidas, símbolo do amor e da misericórdia de Deus.

Axé!
Pe. Degaaxé



[1] Cf. ZILLES, Urbano. Significação dos símbolos cristãos. p. 11. O autor L. C. Susin vai  dizer que “o símbolo é a linguagem própria do ser humano porque é aberto a ‘algo mais’, transcende a si mesmo”. (SUSIN, Luiz Carlos. Op. cit., p. 83).
[2] TILLICH, Paul. Apud ZILLES, Urbano. Op. cit., p. 11.
[3] “(...) Os símbolos têm valor fixo, para todos os seres humanos, e ao mesmo tempo tomam direção de acordo com a cultura, a consciência, a religião. Por exemplo, o sol: pode ser ‘senhor’ e ‘Deus’, ou pode ser senhor e irmão. Que seja senhor é valor fixo. Que seja Deus para alguns e irmão para outros é direcionado” (SUSIN, Luiz Carlos. Op. cit., p. 91).
[4] Ibid., p. 18.
[5] “Símbolo é mais do que um mero sinal convencional que aponta para outra coisa, como seria a seta indicadora na estrada. O símbolo é a condensação de uma realidade da qual ele participa. Aponta para dentro de si mesmo. Ver o símbolo é ver a realidade que não se esgota na visão. Saborear o símbolo é saborear a realidade que não se esgota nesse sabor” (Ibid, p. 83).
[6] Cf. ZILLES, Urbano. Op. cit., p. 14.
[7] Ibid., p. 14.