domingo, 13 de maio de 2012

QUEM AMA NÃO FAZ DISCRIMINAÇÃO DE PESSOAS

De fato, estou compreendendo que Deus não faz
distinção entre as pessoas (Atos 10, 34).

 Deus é amor. Se quisermos falar aqui de definição, esta é a que melhor corresponde à essência divina. Todos e todas são chamados a amar porque Deus, que é amor em pessoa, se deu a conhecer e ensinou como vivenciá-lo. Parafraseando uma música popular, afirmo que é preciso amar as pessoas como se tudo terminasse hoje, como se esse fosse o meu, o seu último ato. Quem não ama não chegou a conhecer a Deus... E nós pensávamos que conhecíamos a Deus, mas nos equivocamos, pois Deus é amor e nós não conseguimos amar de verdade. O amor em Deus é tão intenso e verdadeiro que gera comunhão entre as pessoas divinas. Nesta mesma comunhão, somos convidados a nos envolver, pois o mesmo amor que a produz é ofertado gratuitamente a nós e não tem como estarmos unidos a Deus senão pelo amor. É preciso permanecer no seu amor para gerar comunhão e esta se torna o primeiro testemunho que nossas comunidades são chamadas a dar: “Vede como se amam!” Isso impressiona. “Tinham tudo em comum e dividiam seus bens com alegria!” Ah, isso convence e transforma. Portanto, o amor é mais concreto do que a gente imagina. O amor romântico pode iludir, enganar, decepcionar. Mas o amor, expresso na entrega, doação e partilha, gera comunhão e transforma vidas.
O amor não só cria comunhão, dando coesão ao grupo, mas o lança na direção das outras pessoas, dignas de reconhecimento e acolhida. Quando se ama não se faz discriminação de pessoas.  Discriminação é negação do ser humano e negação da imagem de Deus presente nele. Quando discriminamos, decidimos não amar, atentando contra a vida dos demais e agindo contra Deus e o seu projeto de vida e comunhão. É certo que Deus, em seu amor, nos salvou, mas ninguém está salvo ao ponto de desprezar os outros, dizendo: “nós estamos salvos, os outros não”. A salvação é direito de todos e todas, pois “Deus quer que todas e todos sejam salvos”. Ele não discrimina e também nós não devemos discriminar ninguém. Como entender, então, o fato de que Deus tenha “preferidos” e de que, a seu exemplo, a Igreja faz opção preferencial pelos pobres? É que nós quando preferimos uns, facilmente discriminamos outros. Com Deus é bem diferente. Imaginemos uma mãe que ama a todos os seus filhos, mas se preocupa mais com o que come pouco ou está doente. Isso não quer dizer que deixe de amar os outros. Assim, em grau bem maior, Deus ama a todos e todas, mas tem um cuidado especial por quem é mais fraco e pobre. Ele prefere estes - porque precisam mais dele - sem excluir os demais, aos quais chama a serem fraternos e solidários para com estes. Neste sentido, reafirmo que Deus não faz discriminação, embora tenha preferidos. Por isso, a Igreja, na América Latina e Caribe, desde Puebla (1979), faz opção preferencial pelos pobres e, em Aparecida, afirma que esta opção não é exclusiva nem excludente, assim como é próprio do amor de Deus.
             A Igreja existe para evangelizar. Como membros desta Igreja, somos enviados a todas as pessoas e culturas, como testemunhas alegres do amor e da misericórdia de Deus. Ele nos amou por primeiro e pede que permaneçamos nele para sermos perfeitos no amor e a nossa missão possa produzir bons frutos. O amor é a essência da vida e da missão. Portanto, quem ama é um missionário, uma missionária. Na evangelização, nos deparamos com muitos desafios e um dos mais presentes é a acolhida a quem age e pensa diferente de nós, por ser de cultura totalmente diferente. Só quem ama verdadeiramente é capaz de superar toda rivalidade, todo bairrismo, todo preconceito, discriminação e ocupar-se do essencial. O Espírito Santo se antecipa sempre nos lugares onde somos convidados a estar e, antes de dizermos algo, precisamos escutar. Todos nós estamos em busca da verdade e precisamos anunciar a Jesus, escutando também o que os outros têm a dizer. Aí é que tem sentido o diálogo – uma das exigências da evangelização. Só dialoga quem vive em busca da verdade; quem se sente dono dela, não tem porque dialogar. Só será possível experimentar plena alegria e realização na missão, quando soubermos acolher os outros como irmãos e irmãs, filhos e filhas muito amados de Deus. Assim, Deus será tudo em todos e “vai ser bonito viver”.

              Parabéns a todas as mamães e que possamos aprender delas a amar segundo Deus. Que Deus as abençoe!

              No amor do Deus que nos faz todos irmãos e irmãs, muito axé!

              Pe. Degaaxé

terça-feira, 8 de maio de 2012

CONSIDERAÇÕES SOBRE O TREZE DE MAIO

           Aproxima-se a data comemorativa do treze de maio e é necessário refletir profundamente sobre o assunto, pois muitas coisas não estão bem esclarecidas. Inclusive existe, no Vaticano, um processo de beatificação da princesa Isabel pelos seus feitos com relação a negros e negras. Quem teve esta iniciativa tinha lá suas razões, que não vem ao caso agora, mas não podemos deixar de perguntar: quando serão beatificados os que contribuíram na formação de comunidades alternativas quilombolas? E os que participavam do movimento abolicionista? E os inúmeros negros e negras que lutaram e morreram nas insurreições pela libertação dos seus irmãos e irmãs? E... Nossa, foram tantos! Quando serão reconhecidos? Zumbi, por exemplo, só é herói nacional porque o Movimento Negro o fez herói, mas a sociedade, em geral, ainda não engoliu. Bom, quero resgatar, neste artigo, alguns aspectos marcantes o em torno da data treze de maio e que – acredito – pode servir de ficha de leitura para a reflexão em grupos de base e auxílio para um repensar as comemorações nesta ‘data’.
Convido, primeiramente a lançarmos um olhar para Brasil internamente, ou seja, nas Pressões Internas: a) as lutas por libertação: Os Quilombos eram sociedades alternativas, espaço de liberdade, reconstituição da África no Brasil. O maior deles foi Palmares, destruído em 1695, mas outros tantos permaneceram. Por todo o território brasileiro, havia revoluções e insurreições - revoltas armadas – nas quais havia participação de escravos fugidios. Destaco a Guerra dos Alfaiates, ocorrida em 1798, na Bahia, que, dentre tantas exigências, havia a abolição da escravatura. b) O processo abolicionista: muitos intelectuais colocaram seus conhecimentos a serviço da libertação. A favor da abolição havia: Luís Gama (em 1861 com Boditude), Joaquim Nambuco, José do Patrocínio, Antonio Bento, José Bonifácio e muitos outros. Assim como havia gente a favor, havia também muita gente contra a abolição, por exemplo: José de Alencar, Machado de Assis – que mantinham em suas obras o negro como escravo. Os obstáculos principais para o processo abolicionista eram: A ideia de que a agricultura entraria em colapso e, portanto, a abolição deveria ser gradual; a ideia de que o escravo era propriedade privada e, então, não se aceitava abolição sem indenização.
            Dirijamos o olhar, agora, para fora do Brasil e percebamos que os ventos estavam favoráveis, ou seja, havia Pressões Externas: trata-se de uma pressão internacional, especialmente da Inglaterra, para aumentar o mercado consumidor no Brasil, através do trabalho assalariado e a continuidade da escravidão atrapalhava os planos ingleses. É bom recordar também que o Brasil era o último país da América que ainda levantava a bandeira da escravidão, contrariando os ideais da Revolução francesa, tão difundidos em nosso continente: liberdade, igualdade e fraternidade. Isso fazia com que mais nações exercessem influência a favor da abolição.
Não havendo mais como manter este estado de coisas e, como só havia 5% de negros ainda escravos, conforme historiadores, vamos então resgatar as Leis que antecederam a Lei Áurea: a primeira delas foi a Lei Eusébio de Queirós, em 1856, através da qual apenas houve a diminuição do trafico de escravos. Em 1871, a Lei do Ventre Livre, pelo então ministro Visconde do Rio Branco, que preconizava que todos os nascidos de escravos estariam livres a partir da data da lei, sendo que, se o dono quisesse podia utilizá-los até completar 21 anos. Em 1875, a Lei do Sexagenário, assassinada pelos ministros Saraiva e Cotegipe, a qual dava liberdade a todos os escravos com mais de 65 anos de idade. Muitos morriam antes, pois o tempo de vida era muito curto, devido ao excesso de trabalho, que deixava suas forças debilitadas. E enfim, em 13 de maio de 1888, Lei Áurea, assinada pela Princesa Isabel. Esta Lei declarava livre todos os escravos e extinguia a escravidão no Brasil.
Tá e daí? Os negros e negras ficaram livres de que? Apenas das chibatadas nos troncos, em praças publicas e dos serviços pesados dos engenhos e das senzalas. Ficaram livres no papel, mas estavam escravos de fato: analfabetos, sem profissão, sem terras, marginalizados. Quem assinou a Lei de Ouro, esqueceu de assassinar a carteira de trabalho dos que deveriam receber algum benefício e recompensa por terem construído este país. O próprio sistema social capitalista fez com que se agravasse a situação dos negros e negras, pois nas cidades, não tinham para onde ir. Como no centro não era permitido, foram forçados a morar em palafitas e cortiços, às margens da sociedade, dando origem ao que chamamos de favelas hoje. No campo, sem terra, os negros e negras eram obrigados a trabalhar nas fazendas em troca do que comer; não produziam porque não tinham os meios de produção. No meio rural, as coisas foram piores: o governo não ofereceu terras nem subsídios e nem meios agrícolas para os negros e negras se auto-sustentarem.  No campo, a preferência foi para os imigrantes europeus, pois  a ideologia que predominava era de que era preciso embranquecer o país para salvá-lo da grande vergonha da escravidão. O próprio ministro Rui Barbosa mandou queimar, na alfândega do Rio de Janeiro, todos os registros que havia sobre a escravidão no Brasil. Que grande perda para a nossa memória histórica! Não tivemos direito nem de saber os detalhes do que se passou com nossos antepassados. Muitos negros e negras, até hoje, não conseguem assumir sua identidade, levados a isso, inclusive pelos estereótipos que mantém a realidade do racismo, perpetuando a realidade de escravidão.
Diante de tudo isso, o que precisava ter sido feito para um treze de maio efetivo e eficaz? Primeiramente, uma estrutura de acolhida dos afro-brasileiros que estavam saindo das senzalas para as cidades; uma política de acolhida destes, no momento em que eles ganhassem a liberdade; uma política voltada para o social em que o povo negro tivesse oportunidades iguais de salários, direito a moradias boas, a educação digna, uma atenção à saúde publica, já que a saúde do povo negro exige cuidados mais específicos, por exemplo: hiper-tensão, anemia falciforme e outros; políticas públicas de valorização de sua cultura, resgatando fragmentos culturais que se perderam ao longo da história; e tantas outras coisas podiam ter sido feitas...
           Como não podemos ficar olhando para o alto, esperando que caia do céu aquilo que achamos importante para o nosso Povo negro viver dignamente, passo a elencar algumas bandeiras levantadas pelo Movimento negro social e eclesial, reivindicando uma reparação do treze de maio mal feito: a bandeira por uma sociedade menos preconceituosa; por uma política agrária de reconhecimento das terras dos remanescentes de quilombos, pois a cultura afro é fruto da terra, a qual é expressão de sua identidade. Por mais respeito às manifestações religiosas afro; por uma política pública de valorização das diferenças étnicas; por Políticas e ações afirmativas: ‘para corrigir as desigualdades sociais e efetivar direitos sociais historicamente negados. Assim, visando eliminar as desigualdades historicamente acumuladas, garantindo a igualdade de oportunidades e tratamento, bem como compensar perdas provocadas por discriminação e marginalização. Um exemplo disso são as cotas, recentemente aprovadas pelo Supremo Tribunal Federal. Por um Descolonizar as mentes, o conhecimento, recuperar a memória histórica, fortalecer os espaços e relacionamentos inter-culturais... (DAp., 96). E nós, afrodescendentes, resgatarmos a nossa dignidade, não de descendentes escravos, mais de um povo que tem uma cultura milenar de reis, e rainhas, guerreiros e homens e mulheres que sempre cultivaram a liberdade, a fraternidade e a solidariedade como valores primordiais.

Muito axé!
Pe. Degaaxé

CONSIDERAÇÕES EM TORNO DAS COTAS RACIAIS

            As ações afirmativas e as políticas públicas que levam em conta a realidade do Povo negro são fruto e expressão de resistência; resistência que teve seu início desde o instante que o primeiro negro colocou os pés nesta terra. Ao longo dos séculos de escravidão, muitas e criativas foram as formas de resistência deste nosso Povo: suicídio, insurreições, banzo, fugas, quilombos, etc. Atualmente, existem novas estratégias, menos violentas, mas também muito eficazes, de acordo com os novos tempos. Dentre elas, quero destacar as ações afirmativas por parte do poder público. Elas não seriam possíveis sem muita militância, resiliência e organização. Para tanto, tem sido fundamental a participação do movimento negro em sua expressão social e eclesial. É bom que fique bem claro que as ações afirmativas não são favores ou concessões do Estado, mas conquistas da Comunidade negra, através de suas lideranças presentes nos diversos setores da sociedade. Como a abolição foi mal feita, segregando a Comunidade negra na marginalização e pobreza, era preciso intervenção da própria Comunidade para ajudar o Estado planejar o jeito certo de tratar seus cidadãos. Foi assim, então, que nasceram os programas de ações afirmativas, que são: “políticas de correção de desigualdades sociais e formas de efetivação de direitos sociais historicamente negados. São medidas especiais e temporárias, de origem estatal ou da sociedade civil, com o objetivo de eliminar as desigualdades historicamente acumuladas, garantindo a igualdade de oportunidades e tratamento, bem como compensar perdas provocadas por discriminação e marginalização, devido a motivos raciais, étnicos, religiosos, de gênero e outros”[1].
            Entre estas ações afirmativas, estão as Cotas raciais, recentemente aprovadas pelo STF, reconhecendo a constitucionalidade das mesmas e, portanto, a obrigatoriedade de serem efetivadas pelo poder público e por toda a sociedade, em vista possibilitar maiores oportunidades aos afrodescendentes, vitimados por um passado cruel, marcado por negações de direitos, dignidade, humanidade. O que se quer é ‘reverter os processos de exclusão de raça e cor historicamente construídos no Brasil’. Dados da última Isto é revelam que, 70% dos pobres brasileiros são negros e que, a cada 4 brasileiros dos mais ricos, apenas 1 é negro. Esse quadro se torna ainda mais cruel quando se refere à universidade. Por exemplo, aqui na Universidade Federal gaúcha, antes das cotas, apenas 3% dos alunos eram negros, hoje esse percentual subiu para 11, 5%[2]. Esta mesma situação está presente em outros Estados brasileiros. Além das cotas, os afrodescendentes tem se beneficiado com o PROUNI e o ENEM. Em um de seus discursos sobre estes projetos, a presidenta afirmou que a finalidade destes é ‘deselitizar o ensino universitário em nosso país’. Vejo nesta afirmação, uma postura profética, que aponta para um novo jeito de conceber o ser humano e suas relações na sociedade. Uma sociedade justa e solidária só se constrói quando se busca ‘igualar os desiguais para que possam competir de igual para igual’.
             Muitos são os testemunhos positivos a respeito desta modalidade de ação afirmativa. Por exemplo, o ministro relator Ricardo Lewandowski diz que ‘ter negros e negras na universidade é uma forma de encurtar a distância que separa quem tem a pele negra dos cargos mais altos de nossa sociedade’. Bom, o fato de ter negro na universidade ainda não resolve a questão da elitização dos cargos mais altos, pois sabemos que na hora da seleção, o drama da ‘boa aparência’ ainda pesa, mas estar na universidade já é um passo muito importante. Aqui, no Rio Grande do Sul, avançou-se muito neste sentido, com as cotas para o serviço público e acho que muitos Estados podem e devem fazer o mesmo. Uma jovem negra, formada em administração, testemunhou, em nosso seminário da pastoral afro, que ela havia participado de entrevistas, juntamente com jovens não-negras, que nem tinham curso universitário, mas nunca havia sido chamada. Somente depois é que ela se deu conta – sem conter as lágrimas - que o problema estava na cor da sua pele, no famoso drama da ‘boa aparência’. É bom lembrar que somos todos iguais e, ao mesmo tempo, diferentes. Iguais na dignidade, mas diferentes no jeito de ser. As diferenças, devemos acolhê-las e não repudiá-las. Ou aceitamos as diferenças ou nos empobreceremos sempre mais – refiro-me a valores. Já afirmava Martin Luther King: ‘enquanto a cor da pele for mais importante que o brilho dos olhos, haverá guerra’.
            O espaço nas universidades é mais uma das tantas conquistas da Comunidade negra. Mas embora termos alcançado, com muito sacrifício, há afrodescendentes que, mesmo sendo beneficiados, não concordam que tenha que ser assim. Realmente tem sido uma experiência desafiadora também por isso. O jornal gaúcho Zero Hora¸ do dia 01 de maio, traz uma lamentável situação: os cotistas negros preencheram apenas metade das vagas na UFRGS, neste semestre. Surpreso, como estava, quis saber a razão e, durante a leitura, percebi as causas são: constrangimento por ser cotista, devido a grande pressão da sociedade em desqualificar as cotas; insuficiente grau de informação disponibilizada, que não favorece interesse de procura; e, em terceiro, estão os cursos oferecidos, que não estão atraindo os possíveis beneficiados[3]. Há quem pense que quem é beneficiado pelas cotas, jamais prosseguirá, por falta de capacidade. Dentre os inúmeros casos que desmitificam esta ideia, cito apenas um, acontecido na PUCRS e que me deixou muito impressionado. Uma aluna negra do direito, que conseguiu acesso pelo sistema de cotas, tirou nota dez em todas as disciplinas, em todos os semestres e passou em primeiro lugar na prova da OAB. Este é um dos muitos exemplos que revelam que os (as) afrodescendentes são tão inteligentes como os outros, só não tiveram as mesmas oportunidades que outros. Será que isso não é suficiente para percebermos que é preciso desconstruir nossas mentalidades e repensar as oportunidades?

Muito axé!
Pe. Degaaxé




[1] Ministério da Justiça, 1996, GTI população negra.
[2] Cf. COSTA, Rachel. O resultado das cotas. Isto é, ano 36, n. 2216, 2 de maio de 2012, p. 52-54.
[3] Cf. BRUM, João. Vestibular 2012: cotistas negros ocupam metade de vagas na UFRGS. Zero Hora, Porto Alegre, 1º de maio de 2012, p. 21.

sábado, 14 de abril de 2012

A ALEGRIA DE VIVER E TESTEMUNHAR A FÉ EM COMUNIDADE

           Deus nos deu o dom de ser e viver em comunidade para o nosso próprio bem e felicidade. Segundo o livro do Gênesis, “Não é bom que o ser humano esteja só” (Gn 2, 18). Somos individualidade, mas também relação. Quando cultivamos demasiadamente a individualidade, nasce o individualismo - o grande atentado à vida comunitária. A partir deste, muitos outros males virão. Ser individualista é como viver fora da comunidade, ou seja, morte. O povo crê piamente nisto, pois, ao considerar a comunidade como centro de sua vivência, acredita que fora da comunidade não há salvação, isto é, quem vive de modo egoísta atrai para si o caos, a perda do sentido, a morte. Quando vivenciamos de verdade os valores da vida comunitária, sentimos que a vida tem mais “sabor” e sentido, seja com nossa parentela, mas também em nível de comunidade eclesial, extensão da nossa comunidade familiar. É neste sentido que queremos refletir a profissão de fé comunitária na presença do Cristo ressuscitado.
           Logo após a prisão, paixão e morte de Jesus a comunidade dos seus seguidores parecia ter esquecido de tudo o que experimentou com ele: a acolhida, o aconchego, a segurança, a solidariedade, a garantia de sua presença até o fim do mundo, cem vezes mais nesta vida e felicidade sem fim na outra, a não ter medo de tempestades, a buscar em primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, a paixão por Deus e pelo ser humano, o engajamento profético em favor da vida, rompendo com as estruturas injustas, a cultivar um estilo de vida simples, a escolher a melhor parte, a perdoar sem limites, a fazer da vida doação, a olhar as situações humanas com ternura e compaixão, mas também com indignação, a sintonizar a própria vontade com a vontade de Deus. Diante de tudo isso, resolvem “fechar as portas”, simplesmente por medo.
           Herdamos a identidade desta comunidade e de seus seguidores imediatos. O fechamento de portas também vem no ‘pacote’. A experiência de fechar as portas traduz muito nossas dificuldades em sermos realmente quem devemos ser. Porta é a vida, o coração. Se estão fechadas é sinal de que algo não está indo bem e que precisa mudar: para com Deus, a fim de que ele encontre espaço e mexa conosco do jeito que ele deseja; e para com os outros a fim de que nos digam coisas que não queremos admitir, mas que precisamos ouvir. O autor John Powel, em seu livro Por que tenho medo de lhe dizer quem sou?, diz que muitas vezes, por medo de não sermos aceitos e acolhidos, não revelamos quem realmente somos e nos fechamos. E fechados, prejudicamos a toda a comunidade.
           As situações de violência, assaltos e roubos em redor, ameaçam nossas vidas e nos fazem sentir medo. Não há quem nunca enfrentou alguma situação assim? Se não foi com você, foi com seu (a) amigo (a), vizinho (a) ou conhecido (a). Nos causa medo também a postura de uma sociedade que se posiciona contra a vida de bebês anencéfalos. Por que mata-los? Quem realmente pode decidir sobre quanto tempo as pessoas devem viver? É certo que Cristo nos libertou, mas parece que continuamos à mercê de uma sociedade que decide quem deve nascer, quem deve viver e quem deve morrer. Realmente, a inversão de valores nos causa medo. Nestas horas, sentimos que as vozes proféticas se calam. Isso nos causa medo. O medo dificulta viver verdadeiramente a própria fé, ou seja, enquanto somos medrosos, ficamos paralisados, trancafiados e nada testemunhamos. Sem perceber, nos tornamos até coniventes com certas situações. Quem poderá acreditar em nós e nos nossos discursos? E como resolver o problema dos medos pessoais? É aí que nos damos conta que os medos devem ser encarados juntos e partilhados em comunidade. Com o apoio uns dos outros e a ação do Deus que se manifesta vivo no meio de nós, podemos certamente superar todos nossos medos. A certeza da presença do Deus vivo, no centro de nossas vidas, não somente afugenta nossos medos, mas nos devolve a alegria, tornando-nos instrumentos de sua paz e de sua misericórdia, para podermos agir profeticamente contra tudo o que ameaça a vida das pessoas. Para isso somos guiados pelo Espírito, dom do seu amor que cria e renova todas as coisas. A vitória de um aparentemente “derrotado” permite que aqueles e aquelas que se sentem ameaçados e perseguidos, possam tomar um novo vigor e não somente esperar por dias melhores, mas, com coragem, lutar para que isto aconteça.
           As primeiras comunidades acreditavam que vivendo a fé de forma solidária e comprometida, estavam colocando no centro de suas vidas o projeto de Deus, ou seja, estavam fazendo a diferença. Eis, portanto o diferencial da nossa vida comunitária cristã, em meio à realidade de medo e incertezas que tantas vezes nos cerca: a fé no Deus que se manifesta vivo em nosso meio. Por isso que precisamos aprofundar sempre mais a nossa fé com todos os meios que a fortalecem e amadurecem. Chega de fé ingênua e superficial! Temos um testemunho a dar, mas precisamos estar convictos de que isso de fato vale a pena. Quem agiu em nossas vidas é digno de fé: por ser Deus e por ser fiel. Foi assim que ele sempre se apresentou. A vivência da fé exige um testemunho pessoal de vida, mas “é também eclesial, pois a fé da Igreja precede, gera e alimenta a nossa fé”. Sabemos, portanto, que não estamos sozinhos e que a nossa caminhada na fé é resultado de um longo processo. Isso nos faz recordar os nossos pais – que são nossos primeiros catequistas; os próprios catequistas eclesiais - com seu testemunho de fé e dedicação; Os sacerdotes, religiosos, religiosas e tantas outras pessoas que passaram por nossas vidas e continuam nos ajudando a viver esta fé plural, aberta, dialogal e, portanto, respeitadora e ministerial, como testemunho do que Deus fez em nós. Onde quer que estejamos, somos plurais, ou seja, eclesiais - isso é lindo e, ao mesmo tempo, comprometedor. “A nossa fé seja prática, coerente; nenhum contraste entre a fé que professamos e a conduta que levamos”, dizia São João Calábria. Queremos concluir com parafraseando São Tomé: Nosso Senhor e nosso Deus, nós cremos, mas, por favor, aumenta a nossa fé!
Muito axé a todos e todas!
Pe. Degaaxé

sábado, 7 de abril de 2012

EXPERIÊNCIA QUE GERA VIDA NOVA

Alegrai-vos, pois este é o dia que o Senhor fez para nós! O anúncio da ressurreição de Jesus é um convite à alegria, alegria da vida que vence a morte, alegria amor que vence a dor e se torna companheiro no caminho, reacendendo esperanças. Os primeiros discípulos ao comunicar este acontecimento, partiam da existência humana de Jesus, ungido por Deus para uma missão, que a desenvolve fazendo bem a todos, curando todos os que estavam possuídos pela mentalidade contraria ao projeto de Deus. Possibilitou experiência plena de sentido aos que deveriam ser suas testemunhas e, mesmo diante da morte injusta, que os abalou duramente, a vitória da vida lhes dá razão de ser discípulos missionários.
Se Cristo não tivesse ressuscitado, de que adiantaria o discurso dos discípulos? Certamente cairia num vazio sem sentido. Inclusive, depois da morte de Cristo, os discípulos já tinham até voltado cada um para os seus afazeres e desfeito o grupo. Não valeria a pena insistir com alguém que frustrou a expectativa de todos e todas.
 Mas hoje, juntamente com as mulheres, somos convidados a uma alegria sem fim. Jesus ressuscitou e permitiu que as mulheres fossem as primeiras a testemunharem o fato. Depois do aparente fracasso, que foi a sua morte, Ele possibilita por primeiro, a experiência de contemplação de sua vitória a quem tinha sua história negada, por ser vitima de uma sociedade machista, excludente e elitista: as mulheres. Estas se tornam as primeiras testemunhas da vitória da vida sobre a morte e assumem na comunidade a vigilância terna e materna para que a vida seja garantida. Só o amor explica.
É neste sentido que queremos voltar a nossa atenção para dois outros personagens diante do sepulcro vazio: Pedro e o discípulo amado (provavelmente seja o apóstolo João). Eles correm juntos para conferir o fato, mas o discípulo amado chega primeiro. É assim o amor: chega primeiro em tudo. “faz acelerar os passos na busca dos objetivos”. Quem ama cuida, antecipa-se nas apreciações de carinho e no encontro da fé. É capaz de perceber, por primeiro, as transformações ao redor, porque ele mesmo tem seu coração transformado pela experiência de ser e sentir-se amado. A experiência da ressurreição é justamente a experiência do amor intenso de Deus que nos escolhe a servi-lo e nos transforma por inteiro em testemunhas do amor que gera vida, fazendo com que vençamos os obstáculos que surgem na caminhada, superemos os preconceitos nas relações de gênero, vençamos o medo que obscurece a vida e vivamos intensamente a fraternidade. É assim que o ressuscitado se faz presente em nossa caminhada. A figura de Pedro é símbolo da luta constante para vencer o cansaço próprio de quem se dedica à missão; de quem é tentado pelo desânimo, mas que supera pela experiência acumulada e intensa de vida, tão necessária para guiar, aconselhar e conduzir. Nos espelhamos nos dois para sermos testemunhas alegres da ressurreição.
Assim é em nossa caminhada existencial: só quando amamos de verdade é que podemos fazer a experiência do Deus vivo e vencedor. Só quando valorizamos a presença das pessoas com o seu jeito diferente de ser é que reconhecemos a presença viva de Deus. Nesta caminhada, cada um tem o seu processo e deve ser respeitado assim, pois Deus não faz distinção de pessoas e é seu desejo fazer-se sentir a todos e todas. Há quem tem facilidade de crer em sua presença e deixar morrer certas resistências que não deixam caminhar. Há outros que não só tem dificuldades para crer, mas também dificultam a fé dos outros. Mas todos e todas são chamados a uma experiência de encontro com o Ressuscitado para se transformarem em suas verdadeiras testemunhas.



Feliz e abençoada Páscoa!

Pe. Degaaxé


sexta-feira, 6 de abril de 2012

PAIXÃO E CRUZ EM VISTA DA VIDA PLENA

            Refletir a paixão de Cristo é ocasião oportuna para refletir o mistério da dor e do sofrimento humano e perceber aí a solidariedade de um Deus que quis passar pela mesma situação para dar um sentido totalmente novo ao nosso sofrer. Nesta ótica, o sofrimento humano não é só errado, mas está superado. Cristo, em seu gesto de amor, quis passar por isso e nos libertar de uma vez por todas. A sua decisão, o seu gesto foram aceitos pelo Pai.
A cruz, que era vergonha para os judeus e loucura para os não-judeus, tornou-se, para os cristãos, sinal de vida e salvação. É um símbolo que ostentamos não por causa do sofrimento e morte de um Deus, mas pela sua decisão de nos conduzir à vida plena, passando pela cruz. Ao assumir a cruz, Jesus assumiu os sofrimentos da humanidade inteira, que são os crucificados da história: os doentes que dependem do serviço público de saúde (as longas filas, o descaso, as frustrações pela falta de atendimento ou pelo mau atendimento, etc), os indígenas desaldeados e desrespeitados, as mulheres exploradas moral e sexualmente, os afrodescendentes vítimas do racismo e das inúmeras negações históricas, os mendigos queimados em praças públicas por causa da intolerância, o estado de miséria e indignidade no qual se encontram os pobres, etc.
É preciso imitar os gestos de Cristo em sua entrega e doação levando em conta alguns pontos bem concretos: a) a sua vida Kenótica: toda a sua vida foi Kenosis (esvaziamento), do nascimento à morte, resistindo a toda espécie de louvação e individualismo porque ele tinha sempre presente o bem dos demais; b) seu engajamento profético: Jesus é o profeta por excelência, que se posiciona em favor das vítimas e contra o sistema estabelecido, faz opção pelos últimos, mesmo que incomode aos poderosos; c) sua fidelidade ao Projeto de Deus: Ele tinha duas paixões: o Reino de Deus e o Deus do Reino – foi tentado a renunciá-las por causa de conveniências, mas a sua firmeza e a convicção de que estava fazendo a coisa certa o mantém fiel até o fim, resultando no sacrifício da própria vida.
Jesus apresenta a cruz como condição para ser sua discípula e seu discípulo. Ele afirma: ‘Quem quiser me seguir, tome a sua cruz a cada dia e me siga. São três os passos a serem dados na identificação com aquele que desejamos seguir: a) a renúncia de si implica mudança de mentalidade, sem a qual é impossível acolher a vida nova que Cristo nos traz; b) tomar a cada dia a própria cruz é assumir a própria história com seus limites e dificuldades, sem murmuração nem comodismo, mas na busca de superação e na compreensão das dificuldades alheias; c) e siga-me é o apelo de Jesus que se apresenta como caminho, verdade e vida, para que a cruz que carregamos tenha verdadeiro sentido, justamente porque ele carrega conosco.
Concluo, dizendo que nossa referência nunca é a cruz pela cruz, mas como meio e expressão de comprometimento em vista da vida nova da Ressurreição – a maior vitória do mundo, na expressão da minha prima Rosana. A páscoa de Cristo consistiu no sacrifício e doação pelas pessoas. A partir dele, a verdadeira páscoa só acontece para nós quando fazemos da vida entrega e doação pelos demais.

Feliz Páscoa!
           Pe. Degaaxé  

quarta-feira, 4 de abril de 2012

5 HÁ RAZÕES PARA SE TER ESPERANÇA?

           No artigo anterior, mostrei como Deus pode transformar uma situação de morte em situação de vida, fracasso em vitória, desgraça em graça. Isso aumenta a certeza de que ele não quer o mal nem criou o mundo mau. É sinal também de que, apesar de tantos males, há razões para se ter esperança. “Só um Deus que nos ama sem limites e que, definitivamente, tem poder para livrar-nos do mal pode assegurar de verdade nossa esperança. Não obstante, então é preciso mostrar que, apesar de todas as aparências, a presença do mal no mundo não contradiz a fé nesse Deus”.[1] Avida cristã tem a tarefa de mostrar a coerência de uma fé que apóia sua resposta na confissão de um ‘Deus-amor’, mas que ao mesmo tempo não pode negar a imensa ferida do mal, presente no mundo.[2] Disso não se deve culpar a Deus, mas reconhecer o que os atos humanos maus são capazes de fazer com o mundo que ele criou. Diante de alguns males no mundo, podemos até desconhecer as suas causas, mas não podemos buscar numa realidade extramundana nem tampouco em Deus.
           Sendo assim, deve haver naqueles e naquelas que se dizem discípulos e discípulas de Cristo, os mesmos sentimentos e disposição que havia em Jesus Cristo, pois “o sacrifício de sua vida produtora de vida e ‘fruto’ é a lei também do discipulado”.[3] Tudo nos leva a crer que Jesus confiou em que, apesar de tudo, Deus estava com ele: que, embora a eliminação empírica desse mal concreto não fosse possível dentro da história, isso não significava abandono e muito menos maldição. Lucas soube expressá-lo, pondo em sua boca estas palavras reveladoras: ‘Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito’ (lC 23, 46). E a Epístola aos Hebreus não teme qualificar isso como duro e real aprendizado, ‘com gritos e lágrimas’ (Hb 5, 7-9). Mas a ressurreição, ao ser reconhecida como já plena e presente, resgatando Jesus do mal, aparece em toda sua profundidade como resposta de Deus ao problema do mal.[4] Contra toda a esperança é preciso professar a fé no Deus que não nos abandona e não se cala.
            O sofrimento, morte e ressurreição de Jesus retratam que é preciso reorientar nossa vontade e liberdade a fim de que cumpram sua verdadeira finalidade: levar-nos a experimentar a plena realização da nossa existência, segundo a vontade daquele que nos criou. Não temos o direito de por em dúvida que, apesar de nossas maldades, existe um Deus Abbá, que está voltado para nós com toda a força e a atividade de seu amor compassivo e libertador. É Deus e não nós o primeiro empenhado na luta contra o mal, e que por isso é ele quem está contínua e incansavelmente solicitando nossa colaboração. Um Deus que se manifesta compadecendo-se de um povo oprimido e solicita a colaboração de Moisés.[5] Ele é um Deus Antimal que, ao longo de todo o processo histórico, conseguiu revelar-se como Aquele que, criando por amor, sempre acompanhou com carinho e ternura a luta humana contra o mal, assegurando o sentido da existência e fundando a esperança da realização definitiva. Um “Deus que Jesus de Nazaré anunciou, de palavra e de obra, de vida, morte e ressurreição, com o símbolo talvez insuperável de Abbá: Deus ‘Pai-Mãe’”.[6] Temos, portanto, muitas razões para ter esperança, a pesar do mal que não dá trégua. Aqui vale aquela frase popular tão badalada: “não diga a Deus que você tem um grande problema; diga ao problema que você tem um grande Deus”.

Modjumbá axé!
Pe. Degaaxé



[1] TORRES QUEIRUGA, A. Esperança apesar do mal. p. 125s.
[2] Cf. Id., Ibid., p. 129s.
[3] GERSTENBERGER, E. et SCHRAGE, W. Por que sofrer?., p. 146.
[4] Cf. TORRES QUEIRUGA, A. Esperança apesar do mal. p. 149.
[5] Id., Ibid., p. 150s.
[6] Id. Repensar o mal. p. 288.