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terça-feira, 8 de novembro de 2011

8 ECLESIOLOGIA


Mesmo sabendo que muita coisa poderia se dizer sobre a Igreja, em seu mistério, arrisco-me em apresentar as idéias que estamos debatendo em sala de aula, em vista do exame universal de teologia. O importante é que tenhamos presente a Igreja como corpo vivo, na comunidade que celebra e nas ações em vista da vida e da salvação das pessoas. Neste sentido, ela é semente do Reino de Deus, em sua realidade de "já" e também de "ainda não", pois anuncia uma realidade que a ultrapassa e assim, participando da Igreja, vivemos também a comunhão com os 'santos', a Igreja celeste.
1 ORIGEM DA IGREJA: O Senhor Jesus deu início a Sua Igreja com a pregação da Boa-Nova, quer dizer, com a vinda do Reino de Deus. Assim foi se formando o grupo dos discípulos e as várias comunidades. Primeiro, a partir da comunidade primitiva de Jerusalém, depois, com Paulo de Tarso, formam-se entre os pagãos, pequenas comunidades de cristãos, estruturadas em torno da Palavra e da Eucaristia. Tendo alcançado a capital do Império Romano, do final do século I até cerca da metade do século V a evangelização se espalha pelos recantos mais longínquos do mundo.
2 AS IMAGENS DA IGREJA: primeiramente como redil, cuja porta única e necessária é Cristo. A Igreja representa o rebanho, no qual o próprio Deus anunciou ser Seu pastor. Outra imagem é lavoura ou campo de Deus. Foi plantada pelo Agricultor celeste como vinha eleita. Ainda a imagem Construção de Deus. O próprio Senhor se comparou a pedra angular, como fundamento para edificação da Igreja, os apóstolos. Temos também a Jerusalém Celeste, a Mãe e a Esposa Imaculada do Cordeiro (Igreja como Esposa de Cristo), que é constantemente acalentada pelo imenso amor de Cristo, a fim de santificá-la. A imagem da Igreja como Corpo de Cristo representa nossa participação e configuração em Cristo a partir do batismo.
3 AS NOTAS DA IGREJA – UNA, SANTA, CATÓLICA e APOSTÓLICA: A Igreja é una porque tem como origem e modelo a unidade na Trindade das Pessoas de um só Deus. A Igreja é santa, porque Deus é santo. A santidade é a vocação de cada um de seus membros e o fim de toda a sua atividade. A Igreja é católica, ou seja, universal, porque nela está presente Cristo e é enviada em missão a todos os povos. A Igreja é apostólica porque, por sua origem e ensinamento, está edificada sobre o “alicerce dos Apóstolos” (Ef 2, 20).
4 A IGREJA COMO POVO DE DEUS: Esta imagem é importante para a autocompreensão da Igreja como sinal no mundo, como povo peregrino e como povo que, mediante a participação pelo batismo, vive em unidade e igualdade na comunidade, estando aberto a adesão de mais pessoas na mesma fé em Cristo.
5 VOCAÇÃO E MISSÃO DO POVO DE DEUS: Segundo a Lumen Gentium: Todos os homens são chamados ao povo de Deus. O povo santo de Deus participa da missão profética de Cristo. Tem por lei o mandamento novo, de amar como Cristo nos amou; e tem por fim o Reino de Deus, começado já na terra pelo próprio Deus, mas que deve ser continuamente desenvolvido para ser também por ele consumado no fim dos tempos.
6 CONSTITUIÇÃO DA IGREJA POVO DE DEUS: É constituída de leigos e clérigos. Há unidade e a igualdade fundamental de todos os batizados na Igreja. Unidade, porque a Igreja é uma comunhão, fruto da mesma fé e do mesmo batismo. Em segundo, vem a diferenciação, fruto do ministério diferente ocupado na comunidade eclesial.
7 SACERDÓCIO COMUM E MINISTERIAL: embora se diferenciem essencialmente e não apenas em grau, ordenam-se mutuamente um ao outro; pois um e outro participam, a seu modo, do único sacerdócio de Cristo.
8 AS VOCAÇÕES PARADIGMÁTICAS: Os Leigos: Exercem a índole secular da Igreja com o mundo, ordenando a humanidade para Deus. Os Sacerdotes: O Sacramento da Ordem é o sacramento da diferenciação, pois distingue os fiéis dentro do único Povo de Deus. Os Religiosos: É consagração total da pessoa a Deus. Os Bispos: Entre os principais encargos dos Bispos ocupa lugar o Múnus de Ensinar, o Múnus de Santificar e o Múnus de Reger.
9 O PRIMADO E A INFALIBILIDADE DO SUCESSOR DE PEDRO: Ele é o vigário de Jesus Cristo e medida de todo o governo eclesiástico. Cabe ao Papa governar a Igreja, em virtude dos poderes recebidos de Cristo. A autoridade do Papa diz respeito ao poder disciplinar (externo e jurídico) e ao poder doutrinal (interno e espiritual). Na Igreja Ocidental, o primado é de direito divino (jurisdição); ao passo que na Igreja Oriental é apenas de honra. A base do papado é cristológica e não mero resultado de uma evolução histórica. Segundo o documento Pastor Aeternus (Vat I, 1870), apresenta o valor do primado do Romano Pontífice e sua infalibilidade pessoal quando delibera e define (clarifica) solenemente algo ex cathedra em matéria de fé ou moral (os costumes). Constitui o ‘ministério da unidade’.
10 COLEGIALIDADE ESPISCOPAL: Os bispos sucedem como conjunto, como colégio, aos demais apóstolos. Têm uma autoridade de ministério que visa à direção pastoral das Igrejas fundadas pelos apóstolos. Embora os Bispos, individualmente, não gozem da prerrogativa da infalibilidade, anunciam, porém, infalivelmente a doutrina de Cristo, e ensinam autenticamente em matéria de fé e costumes o que está definido pela Igreja.
11 IGREJA COMO SACRAMENTO UNIVERSAL DE SALVAÇÃO: quer ressaltar o lado espiritual da Igreja e não só o institucional. E porque a Igreja é em Cristo como que o sacramento ou o sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano. Indica uma realidade terrena, na qual, ao mesmo tempo, se esconde e se manifesta a realidade divina e a sua eficácia. O elemento mais importante é a dimensão do mistério. A Igreja se mostra como sacramento unitatis, pois realiza a unidade de todos os seres humanos, integrando o universo e o cosmos.
12 A COMUNHÃO DOS SANTOS: A união dos que estão na terra com os irmãos que já adormeceram na paz de Cristo de maneira nenhuma se interrompe; pelo contrário, reforça-se pela comunicação dos bens espirituais. Os bem-aventurados, em virtude de sua união com Cristo, confirmam mais solidamente toda a Igreja na santidade; enobrecem o culto que a Igreja presta a Deus e muito contribuem para que ela se edifique em maior amplitude; não cessam de interceder em nosso favor junto ao Pai.         Não veneramos, porém, a memória dos santos apenas pelo exemplo que nos dão. Fazemo-lo mais ainda para que a união de toda a Igreja se consolide pelo exercício da caridade fraterna.

Modjumbá axé!
Pe. Degaaxé

domingo, 30 de outubro de 2011

PASSOS A SEREM DADOS EM VISTA DA PLENA COMUNHÃO ENTRE OS CRISTÃOS

            O autor, do qual estamos tratando, P. Florenskij, é muito realista ao analisar a questão da divisão dos cristãos, mas, em seu discurso, mostra uma capacidade muito grande de convencimento a respeito das reais possibilidades de uma unidade também real, ou seja, o seu discurso é cheio de motivação de esperança, pois ele tem presente sempre a ação divina nos corações que pode levar as pessoas a repensarem suas posturas e não mais dificultarem as coisas.
“Diante da crise iminente do cristianismo, todos os que se definem cristãos devem pôr-se um ultimatum e arrepender-se ‘com uma só alma e uma só voz’, proclamando: Senhor, ‘ajuda-me na minha incredulidade’. Então a questão da unidade do mundo cristão deixará finalmente o espaço fechado dos escritórios e das chancelarias para sair ao aberto, e aquilo que se mostra difícil e impossível para os homens se mostrará totalmente possível para Deus”[1].
Esta posição do nosso autor é confirmada na encíclica Ut unum sint que diz que o empenho ecuménico deve fundar-se na conversão dos corações e na oração, ambas induzindo depois à necessária purificação da memória histórica. Em outras palavras, recorda que o passado é doloroso para o cristianismo e ainda continua a produzir feridas entre os cristãos, mas que todos, motivados pelo amor, pela coragem da verdade e pela graça do Espírito, devem se perdoar mutuamente e a se reconciliarem (Cf. UUS, 1). E assim continua Florenskij: “A unidade do mundo cristão é possível somente mediante uma ‘mudança do modo de pensar’ (metavoia – metanoia) e um profundo exame de consciência – em primeiro lugar – no âmbito da própria confissão”[2]. Ele vai insistir no respeito como atitude que revela autenticidade no seguimento de Jesus e na resolução dos conflitos:
“Quem não respeita as formas concretas da vida religiosa da própria confissão não aprenderá nunca a respeitar as formas de outra confissão, e então a unidade seria de qualquer modo falaz e deletéria justamente para a vida religiosa, para a plenitude da qual ela tinha sido pensada”[3].
É em vista desta plenitude que o Concílio Vaticano II, entre outros apelos, vai provocar os cristãos, especialmente os católicos, para que reconheçam, com alegria, e estimem os bens verdadeiramente cristãos, oriundos de um patrimônio comum, que se encontram nas outras denominações: “É justo e salutar reconhecer as riquezas de Cristo e as obras de virtude na vida dos que testemunham em favor de Cristo, às vezes até à efusão de sangue: Deus é sempre admirável e digno de admiração em suas obras" (UR 4/772). Isto nos faz perceber que, em relação a Igreja católica, foi dado um passo muito significativo nesta direção. Inclusive, o foco da Ut Unum Sint é recordar a toda a Igreja que a busca da unidade e da plena comunhão entre os cristãos não é uma atividade facultativa, mas faz parte de sua missão como serva de Cristo (UUS, 20). Cabe também uma referência ao documento de Aparecida[4] que, de modo muito provocador, afirma que é preciso “recomeçar a partir de Jesus Cristo” (DAp 12, 41 e 549), que nada mais é do que reassumir a nossa missão segundo o desejo daquele que nos constituiu seus discípulos e rezou ao Pai, pedindo “que todos sejam um” (Jo 17, 21).
É preciso investir todos os esforços e acreditar que a unidade é possível. Segundo Florenskij, é preciso descartar a necessidade de apologética, insistindo na necessidade do diálogo para o conhecimento e compreensão mútuos[5]. Quando se fala em diálogo é necessário ter disposição para mudar e crescer, e não ficar exigindo a mudança do outro. O verdadeiro diálogo acontece quando ninguém precisar renunciar à sua fé por causa do encontro com outra fé[6]. É na procura da verdade que o diálogo encontra seu sentido. Só dialoga quem busca a verdade; mas quem se considera dono dela não tem porque dialogar. “É hora de ressoar um apelo ao arrependimento do mundo cristão, um apelo que de uma fé pela metade nos leve a uma fé plena e da torre de Babel à Cidade de Deus”[7].



[1] FLORENSKIJ, Cristianismo e cultura, p. 4.
[2] Id., Ibid., p. 7.
[3] Id., Ibid., p. 5.
[4] V Conferência do Episcopado Latinoamericano e Caribenho, acontecida na cidade de Aparecida, no Brasil, em 2007.
[5] Cf. FLORENSKIJ, Op. cit., p. 7
[6] Cf. SWIDLER, L. Cristãos e não-cristãos em diálogo., p. 18s.
[7] FLORENSKIJ, Op. cit., p. 7